quarta-feira, 14 de junho de 2017

A produção dos indivíduos socialmente condicionada, em Karl Marx.




         Nascido na Alemanha, na cidade de Treves, Karl Marx escreveu sobre filosofia, economia e sociologia. Seu pensamento é um dos mais difíceis de compreender, explicar ou sintetizar, por tamanha riqueza e desdobramentos que vão além do campo teórico e científico. Com o objetivo de entender o sistema capitalista e modificá-lo, Marx produziu muito, suas ideias se desdobraram em várias vertentes e foram incorporadas por diferentes estudiosos. A recepção do seu pensamento no cenário mundial, se deu tanto pelo caráter universal de seus princípios, o caráter totalizante que imprimiu às suas ideias, como também, ao caráter político, militante de suas ideias divulgadas e voltadas para a ação prática, ou ainda, para a práxis revolucionária.
            Marx foi sensível as dificuldades enfrentadas pela Europa, numa época de pleno desenvolvimento capitalista, apontou as contradições desse modo de organização social, que quanto mais crescia, mais aprofundava seus conflitos e dissensões. As revoluções burguesas eclodiam por todo o velho continente fruto de um processo histórico que cada vez mais se constituía e condicionava as relações do mundo vivido. Destacando as contradições básicas da sociedade capitalista e as possibilidades de superação da mesma, em época de grande efervescência social, de lutas sociais que eclodiam por toda a Europa, o pensamento marxista possibilitou o desenvolvimento não apenas da ciência, mas também da política, da organização dos grupos sociais a partir de uma suposta necessidade política, de uma participação ativa na vida social.
            Influenciado pela filosofia alemã, destacando o pensamento de Georg W. Hegel e Ludwing Feuerbach, além do pensamento político francês e inglês, de Rousseau, conde de Saint-Simon, François-Charles Fourier e Robert Owen, o pensamento marxista também sofreu influência dos economistas ingleses como Adam Smith e David Ricardo. Todos eles necessários para compreensão da reflexão marxista da moderna sociedade capitalista.
            A problemática do trabalho já aparece nas reflexões dos economistas ingleses como um elemento importante na vida social, pois é ele quem gera riqueza para as sociedades. Mas, além de ser capaz de criar valor, esse elemento o trabalho, comum a todas as formas sociais da vida humana, torna-se decisivo para a compreensão crítica do capitalismo, para o seu funcionamento, para o modo como condiciona a vida social. As divisões, as especialidades que o trabalho vem apresentando na sociedade capitalista, para Marx seria o produto de um modo de produção em desenvolvimento, esse modo de produção da vida material condiciona o processo de vida social, política e intelectual (MARX, 1946, p.31).
Pensando assim, o indivíduo aparece condicionado, sua atividade laboral pré estabelecida, para fins privados e estranhos aos seus interesses próprios. O trabalho não é somente um elemento natural, atividade vital, vida produtiva, que constrói e transforma o mundo. Essa força vital, livre e consciente ocupa um lugar de destaque na produção capitalista. Além de gerar valor para as sociedades, no moderno capitalismo, o trabalho alienado afasta do homem sua potencialidade vital, sua objetividade real como ente-espécie, seu objetivo fundamental.

Quanto mais fundo voltamos na história, mais o indivíduo, e por isso também o indivíduo que produz, aparece como dependente, como membro de um todo maior: de início, e de maneira totalmente natural, na família e na família ampliada em tribo [Stamm]; mais tarde, nas diversas formas de comunidade resultantes do conflito e da fusão das tribos. Somente no século XVIII, com a “sociedade burguesa”, as diversas formas de conexão social confrontam o indivíduo como simples meio para fins privados, como necessidade exterior. (MARX, 2011, p. 40.).
           
Esse trabalho condicionado por um modo especifico de produção, o capitalista, possibilita compreender as contradições do modo de vida mercantil. A forma como os homens ocupam suas vidas cotidianamente seria o resultado de forças antagônicas, de lutas de classes, afirmaria Marx. Assim, partindo da análise do materialismo histórico, teoria abrangente e universal desenvolvida por Marx, que buscava analisar toda e qualquer forma produtiva criada pelo homem, é possível problematizar o modo de produção da sociedade burguesa e consequentemente o trabalho. Os fatores fundamentais que organizam os homens para a produção de bens são: as forças produtivas e as relações de produção. Esses dois fatores são apresentados por Marx já em suas obras da juventude (1841-1844) da seguinte maneira:

(...) na produção social da própria existência, os homens entram em relações determinadas, necessárias, independentes de sua vontade; estas relações de produção correspondem a um grau determinado de desenvolvimento de suas forças produtivas materiais. O conjunto dessas relações de produção constitui a estrutura econômica da sociedade, a base real sobre a qual se eleva uma superestrutura jurídica e política e à qual correspondem formas sociais determinadas de consciência. (MARX, 1946, p.31).

            As forças produtivas constituem as condições materiais de toda a produção. Seja qual for o processo de trabalho determinados objetos são necessários, matérias-primas extraídas da natureza, determinados instrumentos - conjunto de forças naturais transformadas e adaptadas pelo homem - como ferramentas ou máquinas. As relações de produção são as formas pelas quais os homens se organizam para produzir. Essas formas se referem às diversas maneiras pelas quais são distribuídos os elementos necessários no processo de trabalho, esses elementos são as matérias-primas, os instrumentos, os trabalhadores e o produto final. Essas relações de produção podem ser escravistas, cooperativistas, servis, ou capitalista. Diferentes formas para o que Marx definiu como modo de produção.
            Para Marx (2011, p. 43), toda produção é apropriação da natureza pelo indivíduo no interior de e mediada por uma determinada forma de sociedade. E seja qual for a forma de produção, ela forja suas próprias relações jurídicas, forma de governo etc. A divisão do trabalho aparece nesse caso como que estabelecida pela produção, no capitalismo moderno, no qual existem duas classes que se antagonizam, que constituem a moderna sociedade, essa divisão se mostra como consequência dessa constituição social. Essas duas grandes classes são: a burguesia e o proletariado.
A sociedade burguesa moderna, que brotou das ruínas da sociedade feudal, não aboliu os antagonismos de classe. Não fez mais do que estabelecer novas classes, novas condições de opressão, novas formas de luta em lugar das que existiram no passado. (...) a nossa época, a época da burguesia, caracteriza-se por ter simplificado os antagonismos de classe. A sociedade divide-se cada vez mais em dois campos opostos, em duas grandes classes em confronto direto: a burguesia e o proletariado. (MARX, 2007, p.41).

            Portanto, a divisão do trabalho aparece no pensamento marxista como produto do modo de produção capitalista, que condiciona e estabelece o lugar dos indivíduos na sociedade. A ocupação dos homens é forjada pela forma como eles produzem socialmente, forma determinada pelo modelo capitalista de produção, que expropria a força de trabalho do proletariado. A divisão do trabalho, e sua especificidade, acarretou um distanciamento cada vez maior entre o trabalhador e o produto fruto da sua força de trabalho. A mecanização dos meios de produção se transforma, desde o princípio até o surgimento da indústria moderna, em processos racionalmente operacionais, subdivididos e parciais. Gerando, com isso, um isolamento dos indivíduos, tanto no tocante à produção como também na comunicabilidade entre si.
            Essa fragmentação abstrata, presente nos processos de produção e, também, na divisão do trabalho, estende-se às propriedades psicológicas do indivíduo, submetendo-o a uma passividade contemplativa. Na sociedade burguesa, há a impossibilidade do ponto de vista unitário sobre, não apenas, a atividade realizada e toda comunicação direta entre os trabalhadores, mas também o distanciamento da possível compreensão, por parte do trabalhador, da sua própria existência e do seu próprio desejo. Dessa perspectiva, surge o trabalho alienado. Que separa o proletariado dos meios de produção, do fruto da sua força de trabalho, que se tornaram propriedade do empresário capitalista, da burguesia.

            A concretização da divisão fabril do trabalho, com a primeira Revolução Industrial, tornou a mercadoria uma ocupação, uma atividade produtiva constante que não pode cessar, pois tem que suprimir as necessidades aparentes e impostas pelo mercado à economia mundial. O capital é a potência econômica da sociedade burguesa que tudo domina. (MARX, 2011, p. 60).

Nenhum comentário:

Postar um comentário